[Diário Gamedev] Sketches de Personagens
Como vocês já devem ter percebido que o meu maior interesse em criar um adventure é contar uma boa história.
Uma boa história, ao contrário do que muitos podem pensar, não começa pelo que acontece nela, mas pelos seus personagens.
Quando eu consigo construir um bom personagem, a história passa a se atrelar a ele, os diálogos passam a fluir com naturalidade - quando eu tenho um bom personagem, eu não preciso gastar muito tempo imaginando o que ele irá fazer: lhes apresento o cenário e ele passa a interagir com ele.
Já tive alguns personagens assim, e já consegui fazer uma história com um personagem de uma série de anime como se os personagens fossem meus e eu os conhecesse perfeitamente
(perdoem pelo rápido egocentrismo, mas, o que eu posso fazer? Eu me sinto muito realizada com uma certa fanfic de Full Metal Alchemist que eu escrevi ;p ), mas estava com alguma dificuldade para conseguir personagens assim para o meu jogo. Eu estava apenas criando “personagens” que se ligavam a “fatos”, mas… era algo tão pouco natural que eu estava tendo dificuldade para enxergar a vida desses personagens.
Aí, hoje, durante a aula de introdução a um dos assuntos mais medonhos de Sinais e Sistemas Lineares I (se você tem arrepios ao ouvir a palavra “convolução“, você é meu amigo), uma personagem resolveu surgir na minha mente, quase sorrateiramente.
Provavelmente será a personagem principal do jogo mas, veremos.
Gostaria de apresentá-la a vocês.
Ela se chama Anne, e é uma prostituta.
E está com problemas.
Um romântico, ao ler isso, pensaria em algo como essa pobre mulher deve ter encontrado o vazio existencial ao se deparar com sua vida devassa, e em como ela deve estar desesperadamente atrás de um amor verdadeiro.
Nada poderia estar mais distante da realidade - Anne tivera um único amor verdadeiro durante toda a sua vida; ou quão verdadeiro pode ser o amor quando se tem dezoito anos, e por causa desse amor ela descobrira, ironicamente, quão fácil pode ser transar com alguém sem sentir um pingo de paixão por ela.
Ele a traiu uma única vez, ela se vingou. De novo, e de novo, e de novo. Após o quarto, o amor pelo rapaz eventualmente se acabou, eles terminaram e juraram se odiar para sempre quando ela partiu para a cidade grande para cursar uma faculdade.
A faculdade era entediante, e ela logo se lembrou de algo que ela sabia fazer bem, não era tão tedioso, e provavelmente lhe renderia mais dinheiro, ao menos enquanto ainda fosse indiscutivelmente bela, e pensou, “por que não?”.
Um realista imaginaria que o problema se relacionava a algo como clientes perigosos, cafetões violentos, alguma doença sexualmente transmissível. Ou que talvez estivesse ficando velha demais para o negócio.
E também estaria redondamente enganado - Anne era de tal forma empreendedora que conseguira chegar a um renda razoável sem um cafetão, muito embora tivesse um relacionamento “amistoso” com alguns deles, recusava-se a ver clientes “problema”, um luxo que passou a se dar depois que sua agenda ficou mais “concorrida” e, do alto dos seus trinta anos, parecia muito longe de precisar se aposentar, graças aos cuidado constantes com sua aparência.
Era dessas mulheres que poderia ter sido bem sucedida em qualquer área que desejasse seguir, mas que acabara escolhendo aqui lhe exigisse menos estudos. Não que não gostasse de ler - adorava, mas, aparentemente, nunca sobre os temas propostos pelos professores, que infelizmente nunca exigiam literatura relacionada ao Kama Sutra, Serial Killers e chás.
Não, ela definitivamente não tinha nenhum dos problemas usuais de uma prostituta, talvez por ter entrado nesse “ramo” por motivos bem diferentes dos da maioria. Na realidade, era bastante decisiva e persuasiva, além de um tanto quanto metida, o que a fazia ajudar outras prostitutas que acabaram se tornando suas amigas com problemas que seus cafetões preferiam ignorar. Uma colega estava doente naquele mês? Ela emprestava dinheiro para aquele mês, cobrava em dobro e ainda a ensinava como usar uma webcam para conseguir uma grana extra. Problemas com cliente? Ela tinha uma “conversa” com o dito cujo, e ele dificilmente voltava a incomodar. Problemas de pele? Ela conhecia todos os cremes, todas as dietas, todas as receitas.
Era assim também com seus clientes - perdera a conta de quantas vezes, ironicamente, salvara um casamento após uma conversa após o sexo. Quantas vezes lhes ensinara novas técnicas, o que servia para deixar uma mulher excitada e o que não servia.
Na realidade, eram coisas como essas que a fizeram se tornar tão respeitada e a ter uma “clientela” seleta, que a pagava bem e não lhe dava problemas.
Não, seu problema era bem diferente do da maioria das suas colegas de profissão, e não envolvia nada das coisas do “mundo underground” que ela poderia esperar. Tratava-se de um problema bem feminino, na realidade: ela queria ter um filho.
Quando pensou nisso pela primeira vez, ao se deparar com um único fio de cabelo branco que surgira em sua cabeça numa certa manhã, considerou que aquilo seria fácil. Diabos, quantas vezes transava em um mês? Não deveria ser nada muito difícil conseguir convencer um cliente a transar com ela sem camisinha - depois de feitos alguns testes, claro - e assinar um documento que o isentasse de qualquer direito e dever em relação àquele filho. Se oferecesse algumas sessões de graça em troca disso, seria uma tarefa simples, muito simples.
Pensara assim até a primeira tentativa. Haviam acabado de transar, ela se dirigiu até ele e começou, com a voz sensual: “Olha, eu gostaria de lhe propor um… ” e, no meio de sua frase, ela acabou olhando de novo para ele. E para sua barriga, sua flácida barriga. E de repente não era aquele homem quem ela via, mas seu filho, disforme com uma enorme barriga. Ela parou de falar e, diante do olhar curioso do homem, teve de improvisar: “… um drinque, meu caro. Tenho uma Vodka maravilhosa, o que você acha?”, e ele respondera com um “Oras, oras, é por isso que eu gosto tanto de você, Anne!”.
Barrigas flácidas, pêlos em excesso, olhos pequenos demais. E, quando não era a aparência, era o intelecto - não que ela quisesse que seu filho fosse um cientista nuclear, mas ela gostaria que seu filho pudesse escolher qualquer área para estudar, e isso poderia ser meio difícil se ele puxasse um pai que tinha dificuldades de concordância básica após os trinta e cinco anos.
Após um mês, ela se deu conta de que, se quisesse encontrar um bom pai para seu filho, teria de sair da sua lista de clientes e ir procurar em outro lugar.
Sua busca começou aí.
E aí, o que acharam? Logo aparecem os outros personagens da história, stay tuned ![]()
(e, claro, nada é tão simples quanto parece, e eu obviamente não iria colocar detalhes mais profundos da trama, mas achei que seria legal colocar um pouco de backstory aqui




![TDC2008 [Florianópolis]: Eu fui!, parte 2](http://www.diskchocolate.com/blog/wp-content/uploads/2008/12/tdc-150x150.jpg)

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7 de abril de 2008 at 6:28 am
[...] Falando em blogs, o Disk Chocolate, da Cindy, também está postando todo o processo de desenvolvimento de um projeto. ...