[Diário Gamedev] Parte II - Game Design e Roteiro, não os negligencie
O primeiro passo? Ler. É o que eu estou fazendo nesse momento, entre uma frase e outra digitada. Estou lendo pelo menos uma pequena parcela de artigos do Gamasutra, um dos melhores sites que eu conheço sobre desenvolvimento de jogos. E quando eu digo isso, entendam: ele fala sobre JOGOS. Não sobre programação, não sobre como modelar aquele personagem com um milhão de polígonos - embora existam seções sobre programação, não existe tanto a preocupação com as linhas de código mas com a lógica por detrás dessas linhas. Ele tem diversos artigos, muitos deles sobre Game Design.Embora pareça óbvio, eu gostaria de perguntar: o que é Game Design? Você “sabe” o que é isso, enquanto jogador. Mas será que você sabe o que é isso enquando desenvolvedor?
Em termos simples: é aquilo no que você REALMENTE deveria prestar atenção ao pensar em fazer um jogo. É a razão pela qual muitos jogos de hoje - indies ou comerciais - são… uma bosta. É a razão pela qual alguns jogos de 20 anos atrás ainda possuem fãs, enquanto alguns jogos de hoje são esquecidos 6 meses após seu lançamento. É o que está debaixo de todos os belos gráficos, de todos os efeitos especiais, milhares de opções, som de cinema. É pelo menos metade de um jogo - se o Game Design não for bom, de pouca adianta a física avançada, o gameplay preciso, os gráficos exuberantes.
Se você quer um jogo que conte uma história, como um RPG ou um Adventure, conte uma BOA história. Chega a ser cansativa a quantidade de jogos cujo fator mais interessante deveria ser a história, mas que pecam com roteiros que parecem escritos por uma criança de 10 anos. Se você quer contar uma história, certifique-se que você sabe contar uma. Estava lendo um artigo no Gamasutra, e uma frase em especial chamou muito a minha atenção:
Because it[Game Design] is an inherently creative task, everybody thinks they can do it.
Por quê? Porque ilustra muito bem o problema com a grande maioria das pessoas que querem fazer um jogo: desprezam o conhecimento em Game Design por ele se tratar de um processo criativo. “Ah, eu não sei programar, nem sei desenhar, mas eu tenho uma idéia de jogo ÓTIMA!” - eu tenho certeza de que muitos que já frequentaram fóruns a respeito de desenvolvimento de jogos já se depararam com algo do gênero. E muitas vezes a “idéia genial” se resume a “algo no estilo de << insira nome de jogo muito famoso aqui >>”. Genial.
Para ser franca: mesmo que houvesse um programa milagroso que lesse sua mente e desenvolvesse seu jogo exatamente conforme você pensou nele, algo assim não resultaria em um bom jogo. Sério. Embora Game Design seja algo inerentemente criativo, você precisa se esforçar para conseguir algo realmente bom. Precisa pensar, e pensar MUITO. “Qual o propósito do jogo?”, “Isso é divertido de se jogar?”, “E o que acontece quando um dado evento ocorre?”. Você precisa ler, e de preferência jogar muitos jogos do gênero que você pretende se especializar. Os jogos bons E os jogos ruins, para saber o que dá certo e o que não dá.
O mesmo vale para o roteiro, claro: uma história sobre “um grupo de cavaleiros que pretende salvar o mundo com a ajuda de cristais mágicos” pode ter tido alguma criatividade na época de Final Fantasy III, mas hoje em dia é um cliché que você deve evitar a todo custo. É claro que você pode trabalhar com clichés, fazer uma paródia, uma reviravolta em algo que até então era manjado, mas tenha ciência disso. Leia, jogue, e leia mais. Você não irá saber que determinadas coisas são clichés e determinadas tramas são mais manjadas que miojo em casa de universitário até ter visto o que outras pessoas fizeram antes de você.
Se você quer fazer um roteiro e escreve coisas como “ecepicional” (eu sei… doeu em mim também), “legau”, “escessão” e… tá bom, eu paro com os exemplos, está doendo escrever aquilo, e vocês já pegaram a idéia. Enfim, se você quer fazer um roteiro “inteligente”, “extraordinário” e “surpreendente”, a primeira coisa que você deveria fazer deveria ser parar de escrever como uma criança na sétima série. Ou na quinta série, depende de quem você está tomando como base, claro. É claro que o mais importante é “passar a idéia” e “ter uma idéia legal”, mas se você escreve como alguém que fugiu de todas as aulas de gramática, as chances são de que você não entende lhufas do assunto.
Se você quer escrever, em primeiro lugar, leia. E leia muito. Eu já disse isso por aqui, mas é o tipo de coisa que você ter repetir para si mesmo como um mantra - ler para poder escrever, pesquisar para poder desenvolver.
Se você quer fazer um game design, jogue, e jogue muito. E novamente, leia. E jogue mais um pouco. E PENSE no que você está jogando - porque esse jogo deu certo e aquele outro, do mesmo gênero, não deu? Quais são os pontos fortes de um determinado jogo? O que faz você jogar aquele jogo mais de uma vez?
Escreva sobre o que você pensa, coloque no papel suas idéias. Esboce, faça diagramas, faça longos textos descrevendo certos aspectos do seu jogo - seu jogo nunca será devidamente organizado se você mantê-lo todo em sua mente e quiser traduzi-lo diretamente em linhas de programação. Não precisa ser algo perfeito, você pode aprimorá-lo depois, descobrir que seria bom mencionar outros aspectos. Mas faça algo. Você nunca irá conseguir algo se não começar.
Como exemplo, vou colocar o primeiro esboço de um Game Design que eu fiz para o meu primeiro jogo. É absurdamente simples, mas é algo que eu gostaria de jogar, e sua simplicidade o torna ideal para um projeto de aprendizado. A idéia pode parecer bizarra para muitos, mas é algo que eu sempre joguei quando estou viajando, com placas de carro, ou quando olho as horas em um mostrador digital.
OK, eu sou meio estranha, admito.
Gênero: Puzzle
Nome: Ainda a definir (?)
Objetivo: Formar equações com os números apresentados.
Como: Num nível qualquer, é apresentada uma sequência de números e o usuário deve colocar sinais aritméticos entre eles para formar uma equação. Exemplo: dada a sequência 2 2 4, o jogador pode utilizar os sinais ‘+’ e ’=’ para formar a equação 2 + 2 = 4, ou ‘*’ e ‘=’ para formar a equação 2 * 2 = 4 ou mesmo os sinais ‘-’ e ’=’ para formar -2 = 2 -4
Nota: ei, eu avisei que possivelmente seria a única pessoa da face da terra interessada nesse jogo.
Desafio: o desafio é composto essencialmente por dois elementos: tempo, por existir um tempo limitado para resolver um determinado problema, e pelo crescimento da sequência de números a cada nível.
Extra: Resolver o mesmo problema de diversas maneiras dentro de um certo limite de tempo rende mais pontos.
A fazer: lógica utilizada pela máquina para gerar uma sequência de números que tenha pelo menos uma solução
Simples, não é mesmo? Falta muita coisa, mas o meu objetivo está bem claro, e o resto deverá estar ao redor desse objetivo. Ter seu objetivo bem definido é o primeiro passo para conseguir fazer um jogo - ou terminar qualquer projeto, de qualquer área.
E aí, alguém que lê esta coluna está desenvolvendo algum projeto? Tem alguma idéia, sugestão? Comentários são muito bem vindos.




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