Hipocrisia Cultural - ou, a Vingança dos Indies
Quando eu era menor, eu me lembro de olhar abismada ao meu redor quando os professores faziam uma pergunta e ninguém respondia. Eram, em sua maioria, perguntas bastante óbvias, o que, para mim, excluía a opção delas não estarem respondendo por não saberem. Era vergonha? Por quê? Lembro-me que me sentia tão constrangida pelo fato de não entender o silêncio alheio que acabava optando, também, pelo silêncio.
Hoje, algo parecido ocorre quando vejo certos argumentos sendo utilizados à exaustão em certas discussões - certos argumentos que são tão pífios e fracos que eu sou obrigada a me perguntar se quem os utiliza tem noção de sua fraqueza. Um, em especial, me fez sentir vontade de blogar a respeito.
É um argumento que eu já havia ouvido certas vezes por outros defensores da pirataria “nesse nosso país, oh, tão malvado”, mas, ao vê-lo ganhar as páginas da egmZine, eu confesso que me senti meio preocupada. Sim, eu sei que o artigo não é uma simples apologia à pirataria e que propõe mudanças baseadas na lei, mas a questão é que, a partir do momento que você usa o direito de acesso a cultura como desculpa para a pirataria, você dá abertura a todo tipo de discussão a respeito do assunto baseada, na maioria das vezes, em argumentos com a profundidade de uma colher de chá.
Não vou nem entrar na questão de que a pirataria é errada e um direito seu não justifica que você deixe de cumprir um de seus deveres - e que os deveres vem, sim, antes dos direitos. A questão que eu gostaria de discutir não é sequer a pirataria por si só - isso é responsabilidadede cada um, você deve fazer o que considera correto, até porque, o problema com o uso da pirataria, ao menos aqui no Brasil, é mais moral do que legal, já que a fiscalização sobre isso é praticamente inexistente.
O meu problema com esse argumento é que ele diz “não tenho dinheiro para comprar original (argumento que eu acho impressionante para alguém que conseguiu comprar um aparelho de mais de 1000 reais… nunca sobra um dinheiro para comprar um jogo original, não?), mas como tenho direito à cultura, isso me dá o direito de usar pirata, já que jogos também são cultura”.
Houve um tempo no qual fazer jogos era um negócio complicado, que precisava de um trabalho tremendo para fazer um joguinho no qual um monte de pixels verdes tentava atravessar a tela e, caso colidisse com outros pixels coloridos que se moviam, morria. Esse tempo é passado. Ouso dizer que um designer independente hoje em dia tem muito mais facilidade para montar seus jogos do que aquele que é melhor na parte de programação, simplesmente porque as ferramentas que permitem a pessoas independentes fazerem seus próprios jogos evoluíram - e muito - na parte de “importe-se menos com o código e mais com o jogo”. Você quer fazer um RPG no melhor estilo da era 16-bits? RPG Maker irá lhe dar diversas ferramentas, permitindo desde jogos simples com os recursos providos pelo próprio programa, sem mexer em uma única linha de código, até RPGs altamente personalizados, com seus próprios desenhos e seus próprios sistemas escritos na linguagem própria do programa. Quer fazer seu próprio adventure point-and-click? Há o AGS (Adventure Game Studio), que lhe permite fazer intricados jogos com uma programação bastante simples, no melhor estilo dos antigos adventures da LucasArts ou, se você quiser, algo com uma aparência mais moderna em 32-bits. Há até mesmo engines para o AGS que lhe permitem fazer um adventure com aparência 3D! Quer fazer um jogo de luta? O Mugen pode lhe ajudar.
Se você tiver mais paciência e quiser fazer um tipo de jogo diferente, existem engines e bibliotecas que poderão lhe ajudar com as partes mais “braçais”, engines físicas, gráficas e de som, que poderão lhe ajudar a se preocupar menos com “o que acontece quando bolaX colide com bolaY” e mais com como isso afeta seu jogo. SDL é um excelente exemplo de biblioteca gráfica e sonora, muito utilizada entre desenvolvedores independentes. ODE é uma engine física que, além de gratuita, é open source.
Existem também frameworks, como o XNA (que lhe permite, inclusive, desenvolver para o XBOX 360) e o próprio Flash (no qual são desenvolvidos a maioria dos jogos online que você vê por aí, e no qual você também pode desenvolver jogos para serem jogados com o Wiimote na sua TV, através do Internet Channel)(tenho a impressão de alguém pode vir reclamar que Flash não é um framework, mas, e daí ;p Esse não é o ponto, vocês entenderam que o Flash e o XNA são ferramentas “integradoras” e que acabam por facilitar, e muito, o desenvolvimento de um jogo).
Mas por que todos esses parágrafos sobre ferramentas de desenvolvimento de jogos, você pode perguntar. Bom, a questão é que essas ferramentas são, obviamente, utilizadas por desenvolvedores. Que fazem - PASMEM! - jogos. E na maioria das vezes - PASMEM! - gratuitos. São milhares de jogos… talvez até alguns milhões de jogos gratuitos por aí, desenvolvidos por pessoas independentes. E pelo menos algumas centenas deles são realmente… bons.

Crayon Physics - é simples, inteligentem criativo… e viciante.
Portal, um dos jogos mais aclamados do ano passado, foi baseado em Narbacular Drop - tendo sido feito, inclusive, pelo mesmo time, mas ao fazer Portal, imagino, o orçamento e a ajuda eram um pouquinho maiores
No próprio site do AGS há inúmeros adventures point-and-click, do jeitão retrô que quase não se vê mais por aí, no NewsGrounds há vários jogos em Flash, no Experimental GamePlay Project há inúmeros jogos alternativos, experimentais (yeah, o nome do site não lhe diria isso, não é mesmo?), feitos em pouquissimo tempo e que buscam outras maneiras de se olhar o mundo dos games. Aliás, um dos grandes ganhadores do ano passado do IGF foi um jogo surgido nesse site, o Crayon Physics. Se você ainda quer mais, há inúmeros blogs a respeito, dentre os quais eu gosto bastante do IndyGamer e de um outro que eu perdi o link, com várias indicações e comentários sobre jogos indies, e também o excelente site GameTunnel, que possui uma lista realmente imensa de jogos, muitos deles com reviews e screenshots. Se você está achando que só há sites internacionais, se engana. Embora o desenvolvimento de jogos seja bem menor em terras tupiniquins, sendo geralmente restrita ao desenvolvimento de jogos para celular, há também jogos indie por aqui, como o promissor “A verdade das Sombras“, que também se trata de uma crítica ao mundo dos jogos baseada no mito da caverna de Platão. Há até mesmo um site brasileiro tratando os jogos como forma de cultura, o Gamecultura.
Narbacular - a semelhança com Portal não é mera coincidência
E, agora sim, por que eu falei tudo isso sobre jogos para contestar aquele argumento lááááá em cima desse artigo? Porque, caros, eu queria apenas demonstrar que o maior inimigo da cultura não é o dinheiro, mas a própria mentalidade das pessoas -a cultura que as faz pensar “o que é pago é melhor”, “o que é bom é aquilo que tá todo mundo falando”. Crayon Physics e Aquaria são dois excelentes jogos e diferentes da grande maioria dos jogos por aí, e são indies - embora Aquaria seja pago, mas ele tem demo e seu preço é bem mais acessível do que a dos jogos das grandes desenvolvedoras. Em termos de cultura, são experiência bem mais completas do que mais-um-jogo-de-tiro-vendido-a-100-reais (no caso de pcs). Aliás, isso é mais uma tendência do que uma regra - como as grandes desenvolvedores dificilmente tendam mudanças muito radicais por medo da reação do mercado, indies tem muito mais liberdade para fazerem os jogos do jeito que desejam, mesmo que seja algo diferente e que talvez ninguém goste de jogar.

Aquaria - Um belo exemplo de jogo indie bonito, diferente e muito bem feito.
Não enxergar isso seria o que? Cultura pobre? Falta de “pensar fora da caixa”? Eu, sinceramente, não tenho certeza. Mas que dá vontade de jogar os campeões do IGF na cara de quem diz que é preciso piratear para conseguir jogar bons jogos, isso dá. E olha que estou só falando de jogos recentes, nem comentei sobre os jogos que tem alguns anos e são vendidos, a 10, 20 reais em revistas, ou os joguinhos que são tão antigos que se tornaram freeware.
Ah, os indies não são tão bonitinhos? Há alguns lindos - embora os mais belos sejam em 2D, já que é difícil fazer um jogo 3D sem gastar milhões e que fique tão bom quanto Bioshock. E, se não são tão belos, muitos possuem gameplay e história superiores a muitos dos jogos comerciais e mainstream.
Mas parece ser uma tendência humana priorizar as aparências sobre o resto, não é mesmo?
Uma pena.




![TDC2008 [Florianópolis]: Eu fui!, parte 2](http://www.diskchocolate.com/blog/wp-content/uploads/2008/12/tdc-150x150.jpg)

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